terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Estratégia Global da União Europeia


Estratégia Global da União Europeia

“A Estratégia Global para a política externa e de segurança da União Europeia” é o subtítulo do documento apresentado pela Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, no dia 28 de junho de 2016. É um documento elaborado pela Alta representante Federica Mogherini, que contou e ali reuniu os vários contributos dos vários Estados-Membros participantes, dispondo ainda do apoio do Serviço Europeu para a Acão Externa, nos termos do artigo 27.º/3 do Tratado da União Europeia (TUE). Para além deste processo de elaboração do documento ter decorrido em concertação com os Estados-Membros, neste âmbito foram também consultados especialistas, recorrendo-se à rede europeia de centros de reflexão sobre as relações internacionais e a EU. Este documento surge no contexto da competência da União em matéria de política externa e segurança comum, onde a Alta Representante é chamada a colaborar dadas as funções que lhe são atribuídas pelos Tratados, nomeadamente no artigo 18.º/2 TUE: as funções de conduzir e executar a política externa e de segurança comum, podendo elaborar propostas neste contexto.
É no âmbito destas funções do alto representante que em 2013, o Conselho Europeu solicita à Alta Representante Catherine Ashton “a redação de um documento que avaliasse o impacto que as mudanças operadas no sistema internacional teriam sobre a União Europeia.”1 Todavia, este papel apenas foi assumido por Federica Mogherini, no ano seguinte, já no exercício das suas funções enquanto Alta Representante. Foi partindo deste documento analítico, apresentado depois em 2015, que o Conselho solicita “uma reflexão estratégica”2 a Mogherini a realizar em conjunto com os Estados-Membros. Assim sucedeu e assim surgiu a “Visão partilhada, ação comum: uma Europa mais forte – Estratégia Global para a Política Externa e de Segurança da União Europeia.” (EUGS).
Esta Estratégia veio a substituir a Estratégia Europeia de Segurança apresentada e adotada em 2003. A Estratégia Europeia de Segurança estava claramente desatualizada face ao contexto internacional, à sua evolução e às alterações significativas que se foram verificando. Logo em 2005 é rejeitado o Tratado Constitucional da União Europeia, fenómeno que vem a marcar o início da crise europeia. Esta crise vai estar ligada a vários fatores como a crise do euro, a crise económica, a redução dos orçamentos de defesa dos Estado-Membros e a multiplicação das divisões internas no seio da UE. Tudo isto trouxe consequências a nível internacional para a UE, vendo a sua projeção externa e credibilidade na cena internacional ficarem diminuídas.
Outra alteração no contexto internacional a apontar prende-se com o surgimento de novas grandes potências como a China cuja afirmação trouxe alterações nos equilíbrios geopolíticos mundiais, uma vez que vêm a expandir as suas esferas de influência.
Entretanto assiste-se ao que ficou conhecido por Primavera Árabe, numa escalada galopante de violência, com protestos e manifestações em massa e afastamentos de vários chefes de Estado. Neste contexto conturbado e de instabilidade em vários países do Norte de África e do Médio Oriente, surgem grupos terroristas como a Al-Qaeda, surge o autoproclamado Estado Islâmico, o que apenas aumentou as tensões já existentes. O Estado Islâmico, inclusive, foi responsável por uma vaga de atentados terroristas na Europa, sobretudo no ano de 2015.
Para além dito, as várias atuações da Rússia no contexto internacional ao anexar a Crimeia ilegalmente; ao enviar meios militares para a zona do Ártico e ao pressionar os territórios da Estónia, Letónia e Lituânia, territórios esses que aderiram à UE em 2004, levam a um complicar das relações entre a UE e a Rússia.
É tendo em linha de conta todos estes acontecimentos, aos quais se acrescenta a entrada em vigor do Tratado de Lisboa em 2009, que se constata a necessidade de reformular a estratégia da União Europeia no âmbito da política externa e de segurança comum. Importa agora fazer um percurso pelo conteúdo desta Estratégia Global de 2016. Começando pelo prefácio da Alta Representante é-nos apresentado um discurso consciente das alterações no contexto internacional, consciente de que a União atravessa uma fase difícil, com grandes desafios, mas onde se reconhece que a solução para os mesmos exige uma visão e uma atuação estratégica e comum. O prefácio inicia-se da seguinte forma: “Está a ser posto em causa o propósito, e até mesmo a própria existência da nossa União Europeia. Porém, os nossos cidadãos e o mundo precisam mais do que nunca de uma União Europeia forte. A instabilidade e a insegurança têm vindo a crescer na União Europeia sem sentido lato. As crises que enfrentamos dentro e fora das nossas fronteiras estão a afetar diretamente a vida dos nossos cidadãos.”. Dá-se, desde o início, relevo e importância aos cidadãos da UE e às suas expectativas e necessidades.
Em termos de organização do texto ele encontra-se tripartido: são trazidos à colação os valores e princípios subjacentes à ação externa da UE; sendo de seguida identificadas as prioridades da UE neste domínio, propondo, por fim, um tomar das rédeas e partir para a ação. Em termos de valores são destacados os seguintes: paz e segurança; prosperidade; democracia e a ideia de que o Direito deve ser a base da ordem mundial.
Quanto à paz e segurança são referidas as suas duas vertentes – interna e externa – chamando a atenção para o facto de ambas estarem relacionadas uma com a outra, dado que a segurança e a paz internas vão estar dependentes de segurança e paz externas, sobretudo nos territórios vizinhos. A estes valores estão também subjacentes interesses como a prevenção de conflitos; e a capacidade de defesa e assistência dos próprios Estados-Membros.
Relativamente à prosperidade, é um valor que se apresenta mais inclinado para a vertente económica e, portanto, a ele vão estar associados: a promoção do crescimento económico e do emprego. Dá-se ainda grande relevância nesta sede à ideia da sustentabilidade, no sentido em que se quer um desenvolvimento, mas terá de ser um desenvolvimento sustentável, não comprometendo o património comum da Humanidade.
A democracia prende-se com o respeito e promoção da proteção “dos direitos humanos, das liberdades fundamentais e do Estado de Direito.”.3 Destaca-se aqui que estes direitos e liberdades e a sua promoção e proteção fazem parte da identidade da União Europeia, pelo que ao desrespeitá-los estar-se-á não só a violar a ordem jurídica da União, mas também a pôr em causa a identidade da UE num contexto externo. Quanto ao Direito como base da ordem mundial é destacado que só uma união efetiva dos Estados-Membros permitirá uma influência a nível mundial, de forma a que o direito internacional e o respeito mútuo sejam permanentemente observados. Neste contexto afirma-se que: “uma ordem multilateral assente no direito internacional, nomeadamente nos princípios da Carta das Nações Unidas e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, é a única garantia para a paz e a segurança, tanto a nível interno como no estrangeiro.”.4
Aos princípios que pautam a atuação externa da UE, também é concedido grande relevo, assumindo-os mesmo como chaves fundamentais que permitem ir de encontro às metas e objetivos traçados. São vários os princípios mencionados: a unidade; o empenhamento e a responsabilidade. A unidade é essencial no sentido em que apenas unidos os Estados-Membros é possível enfrentar o conjunto de desafios que vão surgindo quer a nível interno, quer a nível externo. O empenhamento prende-se com as relações da UE com os outros a nível global. Finalmente a responsabilidade vai estar ligada à resposta por parte da UE, uma resposta rápida e eficaz na prevenção de conflitos e no combate às crises, não só em território europeu, mas também noutras regiões do mundo. Para isto é imperativo que a UE estabeleça uma boa rede de parcerias não só com Estados terceiros, mas também com organismos regionais e organizações internacionais.
Seguem-se as prioridades da União Europeia no âmbito da ação externa, sendo a primeira a segurança e defesa da União. Esta prioridade tem que ver com todas as circunstâncias a nível internacional que têm vindo a colocar em causa a segurança da UE, como sejam os atos terroristas. É neste campo que se reconhece a necessidade de maior investimento de modo a não depender tanto da NATO, que se assume como o primeiro quadro de defesa coletiva europeu para vários Estados-Membros. Porém, nem todos os Estados-Membros fazem parte da NATO, pelo que a UE deve ser capaz de ter uma resposta e atuação autónoma neste domínio. Neste ponto são ainda explorados fatores concretos como a cibersegurança, a segurança energética e a comunicação estratégica ligada à diplomacia.
Quanto à segunda prioridade, “deve ser a resiliência social e dos Estados que estão a Leste e a Sul da Europa, isto porque a fragilidade dos Estados que circundam a Europa ameaça os seus interesses vitais.”.5 Portanto, a resiliência dos Estados é aqui a figura central, devendo ser tida em conta no âmbito das várias políticas conduzidas pela UE, desde a política de alargamento, à política de vizinhança detendo sempre como base o diálogo e a sua promoção. Ainda neste ponto é referida a necessidade de adotar uma política de migração mais eficaz que permita dar respostas às situações dos refugiados e de crises humanitárias como as que se têm verificado nos últimos anos.
A prioridade que surge de seguida prende-se com a abordagem integrada para os conflitos e as crises, prioridade que vai estar relacionada com o princípio da responsabilidade já mencionado e com a ideia de desenvolvimento de parcerias, pois que “sendo as crises e os conflitos multidimensionais só uma resposta multidimensional, isto é, através de todas as políticas e instrumentos disponíveis, pode ser eficaz.”6 Destaca-se neste contexto a necessidade da UE estar capaz e pronta para agir atempada e eficazmente prevenindo conflitos e protegendo vidas.
Segue-se uma prioridade ligada ao desenvolvimento das relações e cooperação a nível regional, correspondendo a situação com a Rússia à primeira, havendo, no entanto outras, como as relações com o Conselho da Europa ou com o Médio Oriente. Por fim, a última prioridade mencionada tem que ver com a governação mundial para o século XXI. Neste ponto destaca-se o dever da União contribuir através da sua influência a nível internacional para a reforma da Carta das Nações Unidas, mas também do próprio Conselho de Segurança e das instituições financeiras internacionais. A acrescentar a estas reformas a União deve ainda participar mais ativamente no âmbito das operações das Nações Unidas de manutenção da paz e de ajuda humanitária. Deve também atuar no sentido de consciencializar o mundo para as alterações climáticas, transmitindo a necessidade de se promover um desenvolvimento sustentável. É, portanto, um ponto onde se realça a ideia de estabelecer parcerias e desenvolver relações de diálogo e cooperação com as demais entidades de relevo internacional, tal como as Nações Unidas.
Depois deste percurso genérico pelo conteúdo da Estratégia Global há que destacar alguns efeitos que esta provocou, de forma direta ou indireta, podendo dizer que o apelo que se fez para a ação teve várias repercussões. Logo em julho de 2016 surge a Declaração conjunta da UE-NATO, onde é manifesto o estreitamento das relações entre ambas as entidades. Para além disto, sucede em setembro de 2016 a Declaração de Bratislava, onde se estabelece um compromisso prioritário. Foi com base nesse compromisso assumido que surge o Plano de Ação Europeu de Defesa que previa a criação do Fundo Europeu de Defesa. Posto isto, foram várias as declarações que surgem enquanto propostas comuns que aprofundam o que ficou definido aquando da Declaração conjunta UE-NATO.
Para concluir cabe fazer observações críticas a este documento. Uma das principais críticas apontadas dizem respeito ao facto desta Estratégia Global ser bastante genérica, no sentido em que não concretiza suficientemente prazos, metas ou meios para alcançar os fins que são propostos. Outra crítica a mencionar prende-se com a ideia de que esta Estratégia não assume verdadeiramente um caráter inovador na medida em que acaba por dar seguimento e continuidade a muitos aspetos mencionados na Estratégia de Segurança de 2003. Apesar disto e tal como refere Ana Guerra Martins: “A Estratégia Global não é, não pretende, nem poderia ser um texto vinculativo, mas isso não lhe retira o mérito de ter chamado a atenção para os novos desafios que a União Europeia e o mundo enfrentam em matéria de segurança e defesa e de ter evidenciado a necessidade de uma visão integrada dos problemas e de uma resposta célere e eficaz.”.7

1 PÉREZ, Rafael García (2017) Estratégia Global da União Europeia – Pragmatismo e Possibilismo. p.71 Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/ri/n53/n53a06.pdf
2 PÉREZ, Rafael García (2017) Estratégia Global da União Europeia – Pragmatismo e Possibilismo. p. 71 Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/ri/n53/n53a06.pdf
3 MOGHERINI, Federica (2016) Visão partilhada, ação comum: uma Europa mais forte – Estratégia Global para a política externa e de segurança da União Europeia. p. 11 Disponível em:
4 MOGHERINI, Federica (2016) Visão partilhada, ação comum: uma Europa mais forte – Estratégia Global para a política externa e de segurança da União Europeia. p. 12 Disponível em:
5 MARTINS, Ana Maria Guerra (2018) Os desafios contemporâneos à ação externa da União Europeia – Lições de Direito Internacional Público II, Almedina, p. 391.
6 MARTINS, Ana Maria Guerra (2018) Os desafios contemporâneos à ação externa da União Europeia – Lições de Direito Internacional Público II, Almedina, p. 391.
7 MARTINS, Ana Maria Guerra (2018) Os desafios contemporâneos à ação externa da União Europeia – Lições de Direito Internacional Público II, Almedina, p. 395.

Bibliografia

GASPAR, Carlos & PINTO, Ana Santos (2016) Reflexões sobre a nova “Estratégia Global da União Europeia para a Política Externa e de Segurança”. Disponível em:
MOGHERINI, Federica (2016) Visão partilhada, ação comum: uma Europa mais forte – Estratégia Global para a política externa e de segurança da União Europeia. Disponível em:















Catarina Alexandra Niza Madeira, número 28263, subturma 8

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