A EU como líder no combate às
mudanças climáticas, em especial, o acordo de Paris
Introdução/Quadro
Jurídico
No
presente artigo, iremo-nos debruçar sobre a atuação da União Europeia a nível
dos problemas ambientais no plano internacional, com um especial foco no
recente acordo de Paris. Para início da exposição, vamos demonstrar como os
problemas ambientais são uma prioridade para a União a resolver não só no plano
interno, mas também no plano externo. De seguida, cabe explicar a atuação da
União antes, durante e depois o acordo de Paris, para podermos determinar a sua
influência a nível mundial.
A
razão da centralidade do acordo de Paris como marco de referência prende-se com
a importância incalculável e a mudança de paradigma imposta pelo acordo
histórico.
A
luta contra as mudanças climáticas vem enunciada, no plano interno, no artigo
3º/nº3 do TUE. Por sua vez, no plano externo, mais relevante para a nossa
exposição, é estabelecida como um dos objetivos da sua política internacional,
como refere o artigo 3º/nº5 do TUE, mais concretamente, o artigo 21º/2/al. d) e
f), relativa à Política Externa e de Segurança Comum em sentido estrito, e o
artigo 191º/1 do TFUE, relativa à política geral da UE relativa ao ambiente.
O
problema das mudanças climáticas é uma das mais prementes preocupações a nível
mundial. Cedo se entendeu, porém, que não seria a nível nacional ou regional
que residia uma possível solução à questão, seriam necessárias medidas tomadas
à escala mundial com a coordenação devida. Trata-se assim de um problema que
extravasa fronteiras, não podendo ser tratado apenas a nível interno.
A
União Europeia cedo começou a adotar uma estratégia ambiental, logo em 1992.
Para além das razões óbvias e preocupantes da sustentabilidade global, é de
notar que há interesses económicos que também suportam a necessidade do recurso
a uma estratégia que leve os Estados-Membros a fazerem a transição para
energias verdes e renováveis. Tendo em conta que a União é a maior importadora
de energia de todo o mundo, eliminar essa grande e dispendiosa dependência
também deve ser objetivo a perseguir.[1]
O papel da UE antes
do acordo de Paris
No
palco internacional a questão ambiental tem vindo a ser debatida nas chamadas Conference of Parties(COP), no âmbito das
Nações Unidas. Conferências estas, criadas com a conferência ECO-91 em Rio de
Janeiro em 1992, que visam desenvolver, em reuniões futuras, as medidas a tomar
no meio ambiental, nomeadamente a redução de GHG (Green House Gases) de modo a não interferir com a evolução natural
do clima.
Destas conferências o
primeiro grande acordo que surgiu foi o Protocolo de Kyoto, em 1997. O
protocolo em questão veio dar um grande primeiro passo no combate às alterações
climáticas, estabelecendo um consenso quanto à realidade e prioridade dos
problemas ambientais, envolvendo quase todos os Estados do mundo. Porém, este
acordo ainda não foi suficiente para satisfazer as exigências, dada a falta de
clareza das medidas a tomar e a retirada do segundo maior emissor de GHG do
planeta, os Estados Unidos da América, que não chegaram a ratificar o acordo. O
acordo também não vinculou verdadeiramente alguns países emissores em larga
escala, como a Índia e a China.
A
não ratificação por parte dos Estados Unidos veio enfraquecer um pouco os
objetivos do acordo, mas veio, na falta da grande potência mundial, garantir
uma posição central à União, que cedo adotou uma estratégia bem como procurou o
consenso na implementação do Protocolo de Kyoto quanto às restantes nações. No
plano interno, em 2007, a União veio ainda aprovar os objetivos Europa 20-20-20.
Com o objetivo de reduzir as emissões de GHG em 20%, aumentar em 20% a
eficiência energética e fazer com que 20% da energia provenha de energias
renováveis, o pacote legislativo foi um dos mais ambiciosos e inovadores deste
tipo de regulação.[2]
Desde
Kyoto têm aumentado os esforços a nível mundial para tomar medidas ambientais
mais agressivas nas diversas COP. As mais relevantes foram, sem dúvida, as COP
de Copenhague (2009), Cancun (2010), Doha (2012), Varsóvia (2013) e Lima
(2014). Todas elas serviram de base para aquilo que se concretizou no consenso
e celebração do Acordo de Paris, em 2015.
Fazendo
uma passagem rápida pelos vários momentos, Copenhague representou um fracasso
para os Estados-Membros, resultando num consenso que ficou aquém das
expectativas da União, tanto pela falta de países envolvidos, como pelos
objetivos alcançados. O fracasso deveu-se também devido às grandes diferenças
que ainda existiam entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento. Desde
então a estratégia tem-se alterado, no sentido de alterar as exigências de modo
a acautelar os interesses de grandes emissores, como os Estados Unidos e a
China, e permitindo a entrada de países em desenvolvimento que possuem menos
capacidades para a luta ambiental, como o caso da Índia. Ao longo das várias
conferências mencionadas, foram-se acertando pontos fulcrais controversos entre
os vários países, como a limitação do aumento da temperatura aos 2ºC e a
criação de um fundo de ajuda aos países em desenvolvimento (Cancun), o acordo
dos detalhes do segundo compromisso de Kyoto (Doha) e o acordo prévio dos
compromissos de Paris (Varsóvia). Já em Lima, previu-se que, de modo a criar um
acordo mais facilitado, que seriam os próprios países a estabelecer metas que
os iriam vincular, as Intended Nationally
Determined Contributions (INDC), reiterando que os Estados não têm todos a
mesma capacidade para lutar contra as alterações climáticas.
Papel da UE no acordo
de paris
A
liderança da União Europeia na luta ambiental marcou definitivamente as
negociações do acordo de Paris com a criação da High Ambition Coalition.[3]
Na sequência da COP de Durban, em 2011, a União procurou aliados para
facilitar o consenso em Paris, assegurar os seus interesses e liderança e
colocar pressão sobre grandes poluentes como os Estados Unidos, a China e a
Índia. A frente de países tentou angariar o máximo de ajuda possível para
atingir em 2015 um ambicioso acordo ambiental sem precedentes, sendo composta
por 80 países, entre eles os Estados Unidos da América, que aderiu pouco antes
do início da COP 21 de Paris.[4]
O
caso da Índia merece uma atenção especial, sendo um dos maiores pontos de
bloqueio às negociações. Dado ao seu fraco desenvolvimento ao nível de acesso a
recursos básicos como eletricidade, o Estado mostrou-se cético ao compromisso
de utilização de energias verdes em vez de combustíveis fosseis baratos para o
seu desenvolvimento rápido, criticando até grandes emissores como os EUA no seu
uso de carvão.
Para
além da questão das medidas a tomar, a Conferência de Paris trouxe uma conversa
mais profunda no que respeita às alterações climáticas. Questões como as causas
e os autores do desastre ambiental, o custo financeiro da transição para
energias renováveis e a própria necessidade e efetividade da atuação ambiental
foram colocadas em causa. Nas negociações do acordo, tendo em conta as altas
exigências de cada um, a União decidiu apostar na feitura de um acordo possível
para todos e na capacidade de cada.
Papel da EU depois do
acordo de paris
Desde
a aprovação do acordo de Paris, ainda são de notar alguns recentes
acontecimentos no plano internacional que respeitam a atuação ambiental da
União.
Talvez
o maior acontecimento foi a retirada dos Estados Unidos do acordo, anunciada
pela administração Trump em 2017 e a efetivar-se assim que possível. A saída,
veio sem dúvida enfraquecer a força do acordo, que deixa agora de incluir o
segundo maior emissor de GHG do planeta. Porém, tal como já aconteceu em Kyoto,
isso garante um lugar de destaque para a União e a China no combate às
emissões, já que uma das maiores potências mundiais deixou de demonstrar o
interesse no acordo que demonstrou na sua feitura.
O
nosso último ponto de referência respeita à atuação recente da União na
aplicação do Acordo de Paris, nomeadamente, no plano internacional. Num recente
acordo de comércio entre a UE e o Japão, incluiu-se uma cláusula inovadora que
ganhou o nome de “Paris Climate Clause”.
Tal cláusula trouxe o debate ambiental para as negociações de quaisquer acordos
internacionais. No plano geral, a aposição da cláusula refere a contraparte tem
de ser parte signatária e aplicar o acordo histórico. Em recentes declarações,
Cecilia Malmström, Comissária Europeia do Comércio, referiu que a cláusula
seria de incluir em todos os acordos internacionais a celebrar pela União, por
forma a garantir a execução do acordo de Paris, sendo já incluída este ano num
acordo com o Canadá.[5]
Conclusão
Penso que, em resumo, a
atuação da União Europeia, após Copenhague se foca em duas vertentes: a criação
de consensos a nível mundial, por um lado, e a atuação por exemplo, por outro.
Sendo um exemplo mundial em regulação ambiental, a União fez e continua a fazer
grandes esforços para reduzir as suas emissões GHG, ocupando uma posição de
liderança no palco mundial, fazendo exercer a sua influência nos restantes
Estados do planeta. Prova disso é a coligação que conseguiu criar antes do
acordo de Paris.
Em sede de notas
conclusivas, é claro que o Acordo de Paris ainda não representa um conjunto de
medidas suficiente para fazer ao problema ambiental: Acredita-se que as medidas
tomadas não conseguem atingir a meta da subida de apenas 2ºC, o nível de
controlo dos países alcançarem os objetivos ainda é bastante reduzido, bem como
ainda existe a falta de um mecanismo de incumprimento concreto. Porém, o
acordo, conseguido com alguma liderança por parte da União, foi o primeiro
grande consenso a nível mundial no plano ambiental. Conjugando a ação
internacional com os benefícios económicos cada vez maiores da transição
ecológica, desde já, com a baixa de preço de energias renováveis e a
independência energética, estão criados fortes alicerces para possibilitar o
combate às emissões GHG e às alterações climáticas.
Francisco Caetano
Nº28147, Subturma 8
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[1] Schreurs,
2016, p. 220
[2] Parker,
2017, p. 240
[3]
Oberthur, 2017, p. 1
[4] Parker,
2017, p. 248
[5]
Mathiesen, 2018
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